quarta-feira, 31 de maio de 2017
A Menina da Lanterna
Era uma vez uma menina, que alegremente carregava a sua lanterna pelas ruas. De repente, chegou o vento, que com grande ímpeto apagou a lanterna da menina. -Ah! Exclamou a menina – Quem poderá reacender a minha lanterna? Olhou para todos os lados, mas não achou ninguém.
Apareceu, então, um animal muito estranho, com espinhos nas costas, de olhos vivos, que corria e se escondia muito ligeiro pelas pedras – Era um ouriço - Querido ouriço! Exclamou a menina – O vento apagou a minha luz. Será que você não sabe quem poderia acender a minha lanterna?
O ouriço disse a ela que não sabia e que perguntasse a outro, pois precisava ir para casa cuidar dos filhos.
A menina continuou caminhando e encontrou-se com um urso, em lenta caminhada, com uma cabeça enorme e um corpo pesado, desajeitado, grunhindo e resmungando. - Querido urso! – falou a menina- O vento apagou a minha luz. Será que você não sabe quem poderá acender minha lanterna? E o urso da floresta disse a ela que não sabia, que perguntasse a outro, pois estava com sono e ia dormir e repousar.
Surgiu então, uma raposa, caçando na floresta esgueirando-se entre o capim. Espantada, a raposa levantou seu focinho e, farejando, descobriu a menina. Indignada, a raposa dirigiu-se a ela e mandou que voltasse para casa porque a menina espantava os ratinhos.
Com tristeza, a menina percebeu que ninguém queria ajudá-la. Sentou-se numa pedra e chorou. Neste momento, surgiram estrelas que lhe disseram: - Pergunte ao sol, porque ele poderá ajudá-la. Depois de ouvir o conselho das estrelas, a menina criou coragem para continuar o seu caminho.
Finalmente, chegou a uma casinha, dentro da qual avistou uma mulher muito velha, sentada, fiando em sua roca. A menina abriu a porta, e cumprimentou a velha.
- Bom dia, querida vovó – disse ela. - Bom dia – respondeu a velha.
A menina perguntou se ela conhecia o caminho até o sol e se ela queria ir com ela, mas a velha disse que não podia acompanhá-la, porque ela fiava sem cessar e sua roca não poderia parar. Mas pediu à menina que descansasse um pouco, pois o caminho era muito longo. A menina entrou na casinha e sentou-se para descansar. Pouco depois, pegou sua lanterna e continuou a caminhada.
Mais para frente encontrou outra casinha no seu caminho, a casa do sapateiro. Ele estava sentado consertando muitos sapatos. A menina abriu a porta e cumprimentou-o. Perguntou, então, se ele conhecia o caminho do sol e se queria ir com ela procurá-lo. Ele disse que não podia acompanhá-la, pois tinha muitos sapatos para consertar. Deixou que ela descansasse um pouco, pois sabia que seu caminho era longo. A menina entrou e sentou-se para descansar. Depois que descansou, pegou a sua lanterna e continuou a caminhada.
Bem longe, avistou uma montanha muito alta. Com certeza, o sol mora lá em cima, – pensou a menina e pôs-se a correr, rápida com uma corsa. No meio do caminho, encontrou uma criança que brincava com uma bola. Chamou-a para que fosse com ela até o sol, mas a criança nem respondeu. Preferiu brincar com sua bola e afastou-se saltitando pelos campos.
Então, a menina da lanterna continuou sozinha o seu caminho. Foi subindo pela encosta da montanha. Quando chegou ao topo, não encontrou o sol.
-Vou esperar aqui, até o sol chegar – pensou a menina, e sentou-se na terra. Como estava muito cansada de sua longa caminhada, seus olhos se fecharam e ela adormeceu. O sol já tinha avistado a menina há muito tempo. Quando chegou a noite, ele desceu até a menina e acendeu a sua lanterna.
Depois que o sol voltou para o céu, a menina acordou.
Oh! A minha lanterna está acesa! – exclamou e, com um salto, pôs-se alegremente a caminhar.
Na volta, reencontrou a criança da bola, que lhe disse ter perdido a bola, não conseguindo encontrá-la por causa do escuro. As duas crianças procuraram, então, a bola. Após encontrá-la, a criança afastou-se alegremente.
A menina da lanterna continuou o seu caminho até o vale e chegou à casa do sapateiro, que estava muito triste, na sua oficina. Quando viu a menina, disse-lhe que seu fogo tinha se apagado e suas mãos estavam frias, não podendo, portanto, trabalhar mais. A menina acendeu a lanterna do sapateiro,
que agradeceu, aqueceu as mãos e pôde martelar e costurar os seus sapatos.
A menina continuou lentamente a sua caminhada pela floresta e chegou ao casebre da velha. Seu quartinho estava escuro. Sua luz tinha se consumido e ela não pôde mais fiar. A menina acendeu nova luz e a velha agradeceu, e logo sua roca girou sem parar, fiando, fiando, sem cansar.
Depois e algum tempo, a menina chegou ao campo e todos os animais acordaram com o brilho de sua lanterna. A raposinha, ofuscada farejou para descobrir de onde vinha tanta luz. O urso bocejou, grunhiu e tropeçando desajeitado, foi atrás da menina. O ouriço, muito curioso, aproximou-se dela e perguntou de onde vinha aquele vaga-lume gigante.
Assim, a menina voltou feliz para casa sempre cantando a sua canção.
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O significado da historia ( não deve ser lido para as crianças) - A busca da Menina da Lanterna simboliza a busca do ser humano por sua luz interior. A história trazida no inverno traz também um significado de recolhimento e interiorização, eu se manifesta aproximando-nos de conteúdos interiores.
Todos nós passamos por momentos difíceis na vida, momentos em que nos sentimos desorientados e sem rumo. Este momento é simbolizado na história quando a menina que tem a luz de sua lanterna apagada e por conseqüência precisa iniciar um caminho de auto-desenvolvimento para reencontrá-la.
Em princípio ela encontra os animais que representam nossos instintos básicos e que precisam ser domados. Todos eles se negam ajudá-la nesse momento e ela adormece para o sonho. Nesse sonho recebe ajuda das estrelas e indicam um caminho a seguir.
Posteriormente, ela se depara com as três partes que formam o homem: o pensar, o querer, o sentir; representados respectivamente pela fiandeira que tece o fio do pensamento, o sapateiro que com sua vontade e ação faz sapatos que nos mantém com os pés no chão, e a criança da bola que experimenta o mundo com os seus sentimentos.
A menina da lanterna pede ajuda para a fiandeira, para o sapateiro e para a criança da bola, mas está também é negada. A menina desanimada desiste, se entrega e adormece para um sono profundo.
Ao despertar para o mundo físico ela encontra sua luz, trazida pelo sol. Na volta ilumina o caminho daqueles que precisam num gesto de doação e amadurecimento do seu sentir, querer e pensar. Ao reencontrar os animais e ajudá-los, também está reconhecendo seus instintos e dominando seu mundo interior.
Quando na volta, a menina, após ter encontrado a luz, a doa para quem precisa, representa um passo grande passo para o ser humano que, após encontrar a luz divina dentro de si, pode fazê-la transformar-se num impulso social.
A Festa da Lanterna
A Festa da Lanterna é uma festa de origem européia. Lá, é comemorada no dia 11 de Novembro, dia de São Martinho. Foi introduzida no Brasil pela primeira Escola Waldorf de São Paulo, para o Jardim da Infância, na época de São João.
No hemisfério Sul, em Junho, estamos entrando no Inverno. Portanto, podemos dizer que essa é uma festa que prepara para a chegada do inverno, época que percebemos uma grande inspiração da terra, uma aquietação da natureza. O clima fica mais frio, a noite chega mais cedo, tudo favorece uma atitude de recolhimento e interiorização, de uma busca para dentro de nós mesmos, da luz que vive no nosso interior.
Em toda chegada de uma nova estação, buscamos direcionar novas atividades e assumir uma postura coerente com as qualidades que a época inspira. Imbuídos de sentimentos verdadeiros tornamos quase que tradutores dessas qualidades que a natureza emana.
Quanto menores as crianças, mais sutis serão nossos gestos, mais plenos de imagens serão os conteúdos trabalhados no dia a dia. O professor de Educação Infantil pode ser um grande poeta que utiliza intensamente as figuras de linguagem a favor das crianças, metaforizando aquilo que os pequenos só podem apreender (e aprender) pelas imagens.
Precisamos cuidar para que a cada época, a cada celebração possamos despertar aquilo que já está impregnado na alma humana e precisa, aos poucos, ser “acordado”. Esse despertar é um processo natural da criança resultando num desenvolvimento individual, à medida que, repetidamente,
povoamos de imagens seus corações. A celebração das festas anuais são ótimos recursos de que nos valemos para possibilitar aos pequenos essas vivências que lhes alimentam a alma proporcionando sentimentos de alegria, amor, coragem, confiança e segurança diante do mundo.
Nas escolas waldorfs, a festa é preparada por integrantes da escola, inclusive pais e amigos. As crianças presenciam e participam com muito entusiasmo a alegria da confecção das lanternas, aprender músicas e escutam pequenas estórias e poesias relacionadas ao tema.
Os professores contem e podem até presentear as crianças com um lindo teatro da história “A menina da Lanterna”, cujas imagens mostram o caminho individual do homem em busca de luz interior. Os personagens do texto nos revelam âmbitos do ser humano que necessitem ser dominados, transformados e renovados. Lembremos que o fogo, desde os tempos mais remotos, é o elemento da natureza mais usado por todos os povos para simbolizar a transformação.
Durante a festa as crianças carregam suas lanternas passeando pelas áreas abertas da escola simbolizando essa luz interior: o fogo divino e transformador que todo o ser humano tem dentro de si, Trilhar esse caminho é uma prova de coragem, e a lanterna acessa é um estímulo que pode ajudar os pequeninos. Caminhando juntos, todos cantam canções folclóricas que nos falam sobre o homem, sobre a natureza, sobre o céu e a Terra e suas relações.
É dever tarefa dos adultos, pais e professores, vivenciar a Festa da Lanterna com plena consciência trazendo as crianças, com veneração, os sentimentos belos, bons e verdadeiros pertinentes a essa época do ano.
Texto escrito por Sônia Maria Ruella (revisitado e adaptado por Maria de Fátima Cardoso)
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